Seja o presente
Você ficaria feliz ao encontrar sob a árvore uma cópia sua?
Enfim e de novo aquela época do ano em que, com alguma sorte, alguém já nos perguntou o que queremos de Natal. Adianto logo que quero saúde, mas, se não for pedir demais, seria bem-vindo também um mundo justo de verdade, onde todos os seres humanos tivessem acesso ilimitado a chocotones e rabanadas.
Coisas sérias à parte, falemos de coisas ainda mais sérias: que é ser o presente, e não apenas dar ou receber um. Ser o presente, antes de tudo, para nós mesmos. Explico: ou você fica feliz ao encontrar sob a árvore uma cópia sua, ou precisa urgentemente rever os hábitos e fazer para si o bem que fazem para a criançada as capivaras de pelúcia.
Ninguém é obrigado a ganhar um Arisdalvo que nem o próprio desembrulharia. Ninguém é obrigado a sorrir para uma Ziricleide que até a própria mandaria devolver.
Fundamentalmente: descubra já uma atividade favorita e a coloque imediatamente no calendário. Pronto. A partir de agora, ela será como a segunda-feira – inevitável. Mas não vale marcar na folhinha dormir o dia todo, comer doce o dia todo, fofocar o dia todo, que até o que é bom deve ser feito com moderação. Procure no seu dicionário aquele verbo que conjuga alegria e saúde. Cantar, dançar, correr. Cozinhar, desenhar, escrever. Que tal ler?
Que acha de olhar (para o lado) e ajudar (o próximo)?
Seja Gal no chuveiro, seja Astaire na laje, seja Bolt no parque. Seja Helena ou Fogaça no fogão, seja Ziraldo ou Martha (a Medeiros) diante do papel em branco. Seja o olhar de espanto diante do papel colorido de palavras. Seja um milésimo do Padre Júlio ao cruzar com quem pede socorro. Seja o que gostaria de ser se não fosse o expediente – que não há expediente melhor para despertar o Natal dentro de si.
Em festa consigo, é mais fácil ser festa – e presente – para o outro. É mais fácil ser o par de meias que aquece o encontro, a essência que perfuma as relações, a maquiagem que levanta a autoestima, a bicicleta que leva até a praia, o livro que leva até a praia, o sítio, o espaço, o coração, o celular que traz boas notícias, o vinho que reúne familiares, amigos e futuros amigos, o abraço que celebra a reunião.
De bem com os próprios fantasmas, é mais fácil até – e aqui atualizo o célebre conto de Dickens para acrescentar um último item a essa listinha de mimos –, é mais fácil até ser o bilionário que apoia a taxação de sua fortuna em prol do fim da fome, da miséria, dos bilionários. Pelo menos uma vez por ano, não custa nada acreditar em Papai Noel.


