País do futuro
Um livro para entender o que somos
Um espelho. Um mapa. Um oráculo. Um espelho porque está ali o reflexo. Um mapa porque está ali o caminho. Um oráculo porque está ali o presente.
É impossível não enxergar nos descendentes de Kehinde as feições da meninada que hoje corre descalça nas ruas. É impossível não localizar na trajetória de Kehinde os desvios que levaram o país aos piores lugares em qualquer ranking de desigualdade. É impossível não escutar na voz de Kehinde as tantas mazelas que ecoam diariamente em nossos ouvidos.
Mais do que uma coleção de lembranças, é um registro de identidade (da nação) o conjunto de episódios que a filha do Daomé narra em Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves.
Estar ao lado dela no instante em que – ainda criança – é arrancada dos seus e atirada num tumbeiro é acompanhar a concepção do Brasil. Estar ao lado dela no ventre de um porão que cheira a morte é acompanhar a gestação do Brasil. Estar ao lado dela quando finalmente é trazida à luz, no litoral de São Salvador, é acompanhar o nascimento do Brasil.
A partir daí atravessamos quase mil páginas e o século dezenove – cujas lutas por liberdade culminaram em abolições ainda incompletas – até entender o que somos.
Somos o sequestrado e o sequestrador. Somos o preto e o branco. Somos a senzala e a casa-grande. Somos a pele e o chicote, o quilombo e o pelourinho.
Somos a mãe de todas as encruzilhadas.
Somos os que viraram carneiros. Somos os pastores armados. Somos os selvagens, os desalmados. Somos os sobreviventes. Somos os mansos, os fugitivos, os insolentes – marias, mahins, marielles, malês. Somos os batizados e os hereges, as sinhás e as amantes, os legítimos e os ilegítimos. Somos o que valemos e o que o sinhô pagou por nós.
Somos a história contada e as histórias não contadas. Somos o flerte e o estupro. Somos os namoros proibidos e os corpos mutilados. Somos as festas e as rebeliões.
Somos os que continuaram no Ayê e os que voltaram ao Orum. Somos a terra e o céu, o inferno e o paraíso. Somos as igrejas e os terreiros. Somos a oração em latim e a reza em iorubá. Somos a Baía de Todos os Santos e todos os santos da Bahia. Somos os voduns, os orixás, os encantados. Somos o amuleto que abençoa os viajantes. Somos a cruz que eles carregam – e o padre crucificado por se amasiar com o que Jesus ensinou.
Somos a ceia e a fome. Somos a erva que cura e a erva que os senhores misturavam na comida até secar o leite das pretas (eles acreditavam – pasmem – que amamentar tirava delas a força para o trabalho). Somos daninhos, cruelmente daninhos. Mas somos também o sal dos versos de Vieira, o sal que dá sabor às terças comuns e adia as quartas cinzentas. E somos sobretudo a água dos rios do interior – a água que serpenteia matas e morros até beijar o mar.
Onde Kehinde busca o filho roubado, em cada cidade, casa, canto, em cada palavra escrita por ela na esperança de abraçá-lo mais uma vez, o Brasil encontra a si mesmo.


