Ela
O exterminador do futuro
Faz mais de vinte anos que Spielberg levou aos cinemas a história de David, o menino-robô à la Pinóquio programado para amar incondicionalmente sua mãe humana. Um quarto de século depois, a inteligência artificial não só virou realidade, como se tornou capaz de, entre outros feitos, despir crianças e espalhar as imagens mundo afora sem qualquer restrição.
Se se tornasse capaz de despir a falsidade dos que juram defender a pureza infantil, mas defendem mesmo uma internet sem lei, eu trocaria “feitos” por “façanhas”.
Ao mesmo tempo que estimula a cultura do estupro, a IA gera registros tão lindos quanto surreais, a exemplo de um rio na cidade do Porto, o Douro, coberto de gelo enquanto os lusos patinam como se não houvesse aquecimento global. Uma prima, a cada dia mais distante (de mim e da sanidade), continua inderretível em sua certeza de que o filme é verdadeiro, ainda que tenha sido incansavelmente alertada do contrário.
Incansavelmente alertados têm sido os alunos também. Usar robôs para ludibriar os professores e responder às tarefas mais básicas, como rabiscar um mísero parágrafo ou resolver uma simples adição, comprometerá para sempre suas células cinzentas ainda em crescimento – a ponto de, em breve, as coitadas não decifrarem nem o que canta o Baby Shark.
Mas como cobrar maturidade de quem mal sabe a diferença entre fralda e fraude, se inclusive adultos jornalistas (certamente não jornalistas adultos) têm pedido a opinião das máquinas até sobre economia e política, como se elas fossem aquelas fontes anônimas que uns e outros inventam existir para dar a notícia que o patrão deseja ver nas manchetes?
Antes a IA servisse apenas para simular selfie com os ídolos ou tirar, na foto, a barriguinha que tiraríamos de fato se substituíssemos chats por pilates.
Ela serve essencialmente para o que foi criada, sob o controle de meia dúzia de bilionários: piratear e privatizar todo o conhecimento humano acumulado em milênios até que faça o que muitos de nós já fazem, só que em menos tempo e sem exigir em troca nada além de água, muita água, quiçá a água de cidades inteiras, imprescindível para resfriar os supercomputadores que a mantêm em funcionamento nos data centers.
Há quem diga que as tecnologias não passam de ferramentas, que não são boas nem más – do mesmo jeito que diz que não é o fuzil que mata, e sim o homem que aperta o gatilho. Arrasta que é fake. Assim como não existe arma de fogo que não tira a vida, não existe IA que não rouba a obra alheia; não existe IA que não destrói o meio ambiente; não existe IA que não ameaça o futuro.
Hoje o obstinado David jamais acreditaria na Fada Azul – ele engoliria rios e mares até que nós acreditássemos nela.



Muito bom, não sejamos ingênuos de acreditar no que advém de telas. Como medusas, são incrivelmente sedutoras, mas podem nos transformar em pedra. Um abraço.