As linguagens do amor
Um pai, duas filhas e o que os une
Não esqueço o dia em que uma amiga, feliz com o Flamengo em mais uma final de campeonato, contou que as melhores lembranças da infância com o pai envolviam o Rubro-Negro. Que acompanhar o time mantinha o velho vivo nela, mesmo após dezesseis anos de sua morte. Que sofrer e vibrar pelo clube do coração era a linguagem de amor deles.
Nem sempre é fácil transformar afeto em gesto ou palavra (que também é gesto), seja porque o temperamento arredio de um ou ambos dificulta a aproximação, seja porque um trauma cala discussões necessárias, seja porque circunstâncias externas, como o trabalho em escala seis por um, tiram o foco do que de fato importa.
Essencialmente é sobre esse impasse que fala o diretor e roteirista Joachim Trier em Valor sentimental. Gustav Borg (Stellan Skarsgård) se afastou das filhas Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) depois de um divórcio nada amigável e, anos mais tarde, quando do falecimento da ex e mãe das meninas, tenta se reconciliar com as duas.
Poucas feridas são curadas com apenas um aceno. É como querer que a rachadura que atravessa os vários andares de uma casa seja eliminada com uma única demão de tinta.
Atriz respeitada nos palcos, Nora recusa o convite de Borg para protagonizar o roteiro que ele, cineasta consagrado, acaba de escrever especialmente para ela. Quem sabe não o aceitasse se antes tivesse ouvido a irmã revelar que passara os mais caros momentos com o pai justamente nas semanas em que, ainda criança, atuara num de seus filmes.
Uma sequência em particular, a que se segue a mais um desentendimento, ilustra o que une aqueles personagens: Nora se refugia num quarto e chora copiosamente. Corta para um plano mais aberto. A moça está num set, cercada de lentes e luzes. Nem assim resta dúvida de que suas lágrimas são reais.
Se o amor entre aquela amiga e seu pai se manifestava mais facilmente na paixão em comum pelo futebol, o afeto entre os Borg se faz ação na arte.
Não por acaso, ao enfim lerem o famigerado script, as irmãs reconhecem um episódio de suas vidas que Gustav jamais poderia saber, a não ser intuitivamente, graças à sua sensibilidade. À maneira dele, e apesar da distância (evidentemente um privilégio masculino, numa sociedade que ainda trata a mãe como a maior responsável pelos filhos), o pai não esteve tão longe quanto imaginavam – a ponto de compreendê-las.
Menos grave para os alicerces de uma relação quando o que falta não é o sentimento, mas tão somente a descoberta do dialeto em que ele se traduz.


