A dois passos do paraíso
Stephen King em mais um tour pelos confins dos Estados Unidos
“Longe de casa/ Há mais de uma semana/ Milhas e milhas distante.”
Poderiam ser os versos da Blitz a epígrafe (ou o epitáfio?) de A longa marcha: caminhe ou morra, enésima adaptação de um Stephen King para o cinema.
O subtítulo resume o enredo: num futuro em ruínas, cinquenta rapazes são sorteados para participar de uma prova sem linha de chegada; ganha – e leva o prêmio em dinheiro, além do direito de ter um desejo realizado – aquele que aguentar mais tempo o tour pelos confins dos Estados Unidos, tiranizados por criaturas como o Major (Mark Hamill), milico linha-dura cuja carabina em riste certamente seria cultuada pelos eleitores de Trump.
É só uma sensação ou qualquer filme ou série de ficção que encene uma distopia tem tido cada vez mais aparência de documentário, tão sombria anda a realidade?
No longa (roteirizado pelo próprio King), não soa inverossímil nem a eliminação – à bala e transmitida ao vivo para todo o país – de quem sucumbe ao cansaço e é obrigado a abandonar a disputa. Cá entre nós: não parece nada absurdo que um tiro na cabeça de cada desistente seja o passo seguinte, e até óbvio, de uma cultura que naturalizou e mesmo divinizou o ato de competir, a ponto de fazer da palavra “perdedor” quase um atestado de óbito.
A estrada, assim como a vida no capitalipse, é o inescapável corredor da morte para qualquer um que não alcance o primeiro lugar. Os planos gerais – ao recorrentemente enquadrarem os competidores como andarilhos indistinguíveis em meio a paisagens imensas e vazias – não por acaso evocam os zumbis que perambulam em hordas nos clássicos do terror. Salvo o campeão, estão todos irremediavelmente condenados. São todos walking dead.
Ao descobrir o que de fato motivava Ray (Cooper Hoffman) a continuar a marcha mesmo extenuado e descalço, já que nem os tênis suportaram tanto chão, Peter (David Jonsson) diz a ele que “a vingança não é suficiente”. Se a frase serve como tentativa de tirar o amigo do beco emocional em que se achava, serve ainda como saída alternativa para a nação, uma rota de escape e esperança, em contraponto àquela que a conduziu aos escombros.
Só que a via para a renovação, num cenário em que a violência asfalta as relações, é estreita demais. A decisão de Peter no clímax ilustra isso, num desfecho tão triste quanto coerente.
Beira a perfeição, nesse contexto, a escolha do eterno Luke Skywalker para interpretar o autoritário e cruel antagonista. Sob fogos de artifício e o refrão, em coro, de um daqueles hinos de louvor ao que o estadunidense entende como América, nem o mais poderoso herói das galáxias resistiria ao chamado fúnebre do Império.


